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Incertezas.


- Alô? - ele atendeu o telefone rapidamente e por um instante arrependi de ter ligado.
- Oi - respondi, com a voz baixa. Queria uma conversa normal, de amenidades, de felicitações por tudo que tem acontecido na vida dele, era melhor manter um tom neutro.
- Oi, ardilla - ele disse e eu sabia que havia sorrido.
- Como você está?
- Bem e você?

Sobre alguém especial.


- Alô? - Bárbara atendeu o telefone que tocava escandalosamente.
- Oi! - Alice a saudou do outro lado da linha.
- Olha, quem é vivo sempre aparece!
- Nem faz tanto tempo assim - Alice resmungou. - Te liguei no seu aniversário.
- Verdade, havia me esquecido disso.
- É a demência da idade - Alice gargalhou.
- Alice, vá à merda! - e Bárbara riu também. - Por que você está me ligando tão próximo da última vez que nos falamos? Normalmente nossas ligações são mais espaçadas.
- Você se esqueceu que dia é hoje?

Sobre sonhos e a vida.


Dim dom! A campainha tocou. Alice não esperava ninguém, não naquele dia em questão. Ela olhou em volta para ter certeza que todos que pertenciam àquela casa estavam ali e franziu o cenho ao constatar que sim.
- Dim dooooom - a pequena Sophia, sentada no chão, disse. - Dim dom, dim dom, dim dom.
- Ei, eu ouvi - Alice falou para que a menina parasse de repetir.
Sophia apenas fez uma careta e voltou a se concentrar em seu brinquedo. Alice secou as mãos no pano de prato, ajeitou os óculos no rosto e caminhou em direção à porta. Ela ficou surpresa ao ver quem estava do outro lado.

Probably.


Ela estava sentada no sofá, jogando Candy Crush  no celular e pensando como poderia estar na Itália em uma hora dessas. A vida estava tão diferente do que esperava quando chegasse àquele ponto, que ela só queria se isolar por um tempo. Mas seu aniversário era amanhã e sua mãe sempre fazia questão de estar em casa para parabenizar a filha caçula desde a hora de acordar, como fazia há 27 anos.
O celular apitou de repente, fazendo o jogo travar e fechar, e Dulce disse um palavrão antes de abrir a notificação. Era uma felicitação de aniversário. Ela fechou a cara no mesmo instante. Seu aniversário ainda não tinha chegado. E era ele mandando. E ele não a chamara de barrilete como vinha fazendo há anos, apenas de ardilla.

I'm feeling good

 
- Você... – ela respirou fundo, tentando entender aquilo. – Você precisa ir embora, Ian.
- Você está falando sério?! – ele a encarou. – Agora?
- Sim, agora – ela virou o rosto. – Minha mãe deve chegar e...
- E ela não pode me ver aqui, tudo bem – ele se levantou.

Like a Star


- Você, por um acaso, sabe que dia é hoje? - ela perguntou do outro lado da linha assim que a amiga atendeu.
- Claro que eu sei, dãl - Bárbara riu. - Como eu poderia esquecer, Alice?
- Sei lá, às vezes eu esqueço - Alice se desculpou.
- Isso é porque você tem aversão à essa data maravilhosa.
- É, pode ser - ela pensou por um momento. - Feliz aniversário.

How hard it is to make it look so easy


- Por que você tanto confere as horas? - Annie lhe perguntou. - Tem outro compromisso depois daqui?
Lucy se segurou para não fazer isso mais uma vez. Ela já tinha olhado as horas cinco segundos atrás, e dez segundos atrás também, e um minuto atrás e assim por diante. Por isso Annie estava comentando. Ela olhou para o iPhone a sua frente e depois para a amiga.
- Pra ver se alguém vai dar pra trás - ela deu de ombros. Realmente mentia muito bem, mas Annie sabia a verdade.

always [...] waits for you

- Você pode parar, por favor? - ela chegou perto dele, nervosa.
- Parar de quê? - ele levantou uma sobrancelha, mas continuou mexendo no celular.
- Para de colocar fotos minhas no seu instagran sem motivo algum. Fotos antigas, fotos da gente se beijando...
- Epa epa! - ele a cortou. - A gente nunca tirou uma foto se beijando.
- Nossos personagens, whatever.
- Qual é o problema com isso? - ele deu uma risadinha. - Nós somos amigos, não posso postar fotos suas? Me desculpe então.

I didn't even know

 Uma outra versão para o reencontro, um outro ponto de vista.

Ela ficou parada na porta por alguns segundos antes de tocar a campainha. Relembrou a ligação que fizera a ele e respirou fundo. Tudo daria certo, eles eram amigos além de tudo, e não eram exatamente o que poderia chamar de namorados. Lucy contou até três e apertou a campainha.
Dim dom!
- Oi – ela sorriu, tirando coragem sabe-se de lá onde, quando Ian abriu a porta.
- Oi – ele também sorriu. - Entra aí – ele deu espaço e ela entrou.
Lucy olhou em volta. Já estivera ali tantas vezes antes, mas essa era diferente demais. Mas ela se acostumaria, ela tinha que acostumar. Ele ficou parado, mesmo depois de ter fechado a porta. Estava observando-a, era simplesmente encantadora. Às vezes lembrava a ele um elfo, com seu pequeno tamanho e uma aura magnetizante.
- Vai ficar parado aí? - ela riu e ele foi para a cozinha.
- E aí, como foram esses dias que não nos vimos?
- Bons – ela largou a bolsa em cima do sofá e o seguiu. - Não nos vemos desde antes do natal? - ele assentiu com um aceno de cabeça. - Fui pra minha cidade, isso você já sabia, passei o ano novo aqui, fui no PCA, fui em Vegas semana passada...
- Você me ligou de lá, não foi?
- Uhum.
Ele ficou em silêncio. Queria perguntar por que, queria saber do namoro, queria... Ele queria saber tudo sobre ela, sobre o último mês, mas tinha receio de perguntar, como se parecesse intromissão, ou até mesmo ciúme. Ela queria falar, queria se explicar, mas não sabia como começar.
- Você...
- Eu... - os dois riram. - Pode falar primeiro.
- Não, fala você – ele lhe deu um copo de água e foi para a sala.
- Eu não posso demorar muito – não era isso que ela iria falar. - As meninas – ele sabia que ela não falava das colegas de elenco, e sim das próprias amigas fora daquele meio artístico – me obrigaram a jantar com elas hoje. Comida mexicana, você sabe que é a minha favorita.
- E você não conseguiria recusar – ela assentiu, rindo. - Que horas?
- Oito. Então acho que saio lá pelas sete e meia ou algo assim – ele olhou o relógio no pulso, mas não tinha nenhum ali.
- Vamos tentar conectar? - ela olhou para o laptop dele em cima da mesa de centro. - Eu queria mesmo conversar com você, saber das coisas que você fez, mas hoje eu realmente não posso.
- Podia ter vindo mais cedo.
- Uuh, eu sei. Mas Jack não parecia legal, então fiquei com ele o dia todo – ele assentiu com a cabeça outra vez, sabia como ela era apaixonada pelo cachorro.
- Ele melhorou?
- Mais ou menos – ela sentou ao chão, recostou no sofá e pegou o computador. - Ele começou espirrando apenas, assim que cheguei de Vegas. Achei que não era nada, uma alergia qualquer. Mas ontem vomitou o dia todo. A veterinária disse que provavelmente ele comeu algo que não devia, o que eu também achei, mas hoje ele ficou deitado na minha cama o dia todo. Então eu fiquei com ele. Acho que consegui – ela já estava logada no site com a câmera ligada. - Start record! Okay, now I have to figure out how tooooo - Ian apareceu no cantinho da câmera - find the chat. Because they cannot ask you.
Lucy continuou tentando conectar de forma que quem os visse pudesse fazer perguntas. Ela tentou uma, duas, três vezes e nada. Na quarta, ela finalmente conseguiu. Os dois responderam as perguntas, saudaram os fãs, conversaram entre si, atenderam seus respectivos telefonemas... Era a mais longa Ustream que faziam, as anteriores duraram no máximo cinco minutos. Mas a todo instante ela lembrava da reserva no restaurante mexicano. Então acabou não ficando por mais tempo, como planejara. Eles se despediram dos fãs e desconectaram a câmera.
- Então eu já vou – ela conferiu as horas no Iphone e se levantou. - Prometo que te ligo amanhã, tudo bem?
- Okay, coma muitas enchilladas por mim – ela sorriu, com um pouco de vergonha, já que aquele prato lhes traziam muitas lembranças. - E diga oi as meninas.
- Digo sim, Claire sempre pergunta por você – ele viu uma sombra nos olhos dela.
- O que foi?
- Ela ainda não gosta muito dele – Lucy enfatizou o pronome. - Diz que prefere você – ela deu de ombros. - Diz que prefere até o David, mas não ele - ele achou estranho; ela, o namorado e as amigas haviam ido à Las Vegas juntos.
- Você...
- Nós conversamos depois, eu realmente tenho que ir – ela pegou a bolsa sobre o sofá. - Eu te devo isso, eu sei, mas hoje eu não posso.
- Ta tudo bem, Lucy, você não precisa me explicar nada – ela reparou que ele a chamava como todos, que não era mais Kate como cerca de três meses atrás. - Vai lá, ou você vai ficar atrasada – ela o olhou, profundamente, mas então seu telefone tocou.
- É a minha mãe, de novo – ela suspirou. - Eu te ligo amanhã – deu uma abraço rápido e desajeitado nele, um beijo na bochecha e saiu do apartamento enquanto atendia o celular. - Hi, mom.
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